2020, o ano da transição energética e digital

A energia e a evolução do setor energético estão na ordem do dia, tanto do ponto de vista comercial como social.

João Rodrigues, Country Manager da Schneider Electric Portugal

A energia e a evolução do setor energético estão na ordem do dia, tanto do ponto de vista comercial como social. Até muito recentemente, a energia era um tema que ocupava (e preocupava) sobretudo as grandes empresas de energia, incluindo produtores, distribuidores e fornecedores, para além dos grandes consumidores. No entanto, as iniciativas governamentais relacionadas com a redução de emissões de poluentes e com a diminuição do consumo energético, em resultado dos compromissos definidos na COP21, resultaram na consequente necessidade de procurar fontes alternativas de energia, numa maior consciencialização social a favor de modelos descarbonizados, no aumento do preço da energia, na melhoria exponencial da tecnologia, entre outros fatores. O direito ao acesso à energia tornou-se num aspeto-chave da igualdade social e tem vindo a moldar um novo contexto, substancialmente mais vasto, para o setor energético.

Não restam dúvidas de que a energia elétrica desempenha um papel fundamental neste novo contexto, graças à possibilidade de ser gerada através de fontes renováveis, à sua capacidade de armazenamento e flexibilidade no transporte, distribuição e consumo, bem como às possibilidades de descentralização. Estima-se que, em 2040, a energia elétrica dará resposta a 40% das necessidades energéticas globais.

Mais especificamente, se encararmos o ambiente de consumo como uma área de referência é possível descobrir as oportunidades, impactos e desafios que o setor irá enfrentar a curto e a médio prazo. A situação atual em relação ao consumo elétrico relacionado com o ambiente industrial, edifícios, datacenters e infraestruturas está claramente marcada por dois fatores condicionantes principais:

  • Por um lado, a transição energética. Não restam dúvidas de que o caminho a seguir, pautado pelas exigências da descarbonização, está a levar-nos para um mundo mais elétrico e com uma produção energética mais distribuída, o que possibilita uma gestão significativamente mais eficiente, desde a geração até ao consumo.  Escusado será dizer que o uso de fontes renováveis constitui um fator-chave para esta transformação, estimando-se que 40% da geração de energia em todo o mundo provenha de fontes renováveis até 2040.
  • Por outro lado, temos as evoluções tecnológicas, que nos proporcionam capacidades de digitalização de qualquer processo ou ambiente de negócios, algo que, até há pouco tempo, era inimaginável. Sem as evoluções tecnológicas hoje disponíveis, a transição energética não seria possível. Trata-se, sem dúvida, da chamada Transformação Digital, o facilitador tecnológico que marca diretamente a forma como a energia é gerida em todas as fases do processo, desde a geração até ao consumo.

Através da combinação destes dois fatores, o novo panorama do setor elétrico traz consigo oportunidades de negócio, tanto para os utilizadores finais como para as restantes empresas que atualmente operam no setor. As empresas terão – de facto, já têm – a possibilidade de diversificar e expandir as suas atividades graças a novos modelos de negócio, mas, para se transformarem, devem ser capazes de adotar novas competências que lhes permitam tirar partido destas oportunidades. Estamos a falar novamente da Transformação Digital, entendida como a capacidade de converter o ambiente de negócios em dados que possam ser analisados e explorados.

Neste novo contexto do mercado energético, marcado pela Transformação Digital e pela Transição Energética como estímulos para a sua evolução e crescimento, o campo da gestão elétrica tem quatro áreas claras de desenvolvimento, que se apoiam umas às outras, para o respetivo crescimento e implementação:

  • Gestão de ativos. Graças à grande quantidade de informação disponível sobre os dispositivos elétricos conectados e o seu tratamento por meio de software, as empresas podem realizar uma manutenção preventiva e preditiva dos equipamentos, evitando falhas inesperadas e trabalhando de forma mais eficiente, o que conduz à otimização dos custos operacionais. Neste sentido, estamos já a assistir, por exemplo, à evolução dos quadros elétricos para intervenientes ativos do sistema, deixando de ser meros elementos passivos de proteção elétrica. Com a incorporação da rastreabilidade dos quadros elétricos equipados com códigos QR, abrem-se inúmeras possibilidades que tiram partido da IoT na sua expressão máxima, comunicando com a Cloud e tendo acesso aos dados de rendimento em tempo real, para otimizar as operações, a manutenção e a gestão energética das instalações.
  • Otimização da utilização da energia. Graças à informação e aos dados recolhidos pelos dispositivos ligados e seu posterior processamento, o controlo do consumo e utilização de energia é substancialmente mais potente, ágil, controlável e previsível, dando lugar a múltiplas possibilidades de otimização e poupança.  Embora já seja trabalhada há anos, esta é uma área de desenvolvimento que continua a ter um enorme potencial. Um estudo da Schneider Electric estima que a eficiência energética vai assegurar uma redução de 30% das emissões de CO2, desde o momento presente até 2040.
  • Continuidade do serviço e segurança das instalações elétricas. Há já alguns anos que a capacidade de assegurar o fornecimento ininterrupto de energia em infraestruturas e equipamentos é considerada fundamental para o desenvolvimento social e económico, bem como para a segurança, tanto em relação aos ativos como às pessoas, para além dos inconvenientes gerados pelos cortes de energia.
  • Sustentabilidade. Embora as empresas optem há anos por diferentes modelos de aquisição de energias renováveis, a evolução para sistemas de autoconsumo que utilizam fontes renováveis com geração descentralizada próxima do ponto de consumo tem, sem dúvida, um enorme potencial para reduzir as emissões poluentes de qualquer sistema. Graças à redução dos custos, tanto dos elementos ativos para a geração renovável, como das tecnologias de armazenamento, vemos que as chamadas microrredes estão muito perto de se tornarem realidade.

O desenvolvimento destes quatro pontos dependerá em grande parte da flexibilidade com que as empresas do setor estejam dispostas a trabalhar. A atual explosão tecnológica leva a que, de um modo geral, as empresas não possam contar com todo o conhecimento necessário para desenvolver ao máximo o potencial que a transformação digital acarreta. A única forma de tirar o máximo partido dela consiste numa combinação de especialização e colaboração, criando um ecossistema de empresas com competências complementares que trabalham com um objetivo comum: desenvolver soluções globais para um cliente cada vez mais exigente e com um papel mais ativo.

A evolução tecnológica do setor, baseada na Transição Energética que é possibilitada por uma profunda Transformação Digital, levar-nos-á, certamente, a assistir a uma enorme evolução dos modelos de negócio e da conceção dos mercados, acrescentando valor para os utilizadores e empresas. Sem dúvida, esta é a melhor altura para trabalhar no setor energético se se souber aproveitar ao máximo as oportunidades.

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