Um resíduo agroalimentar abundante e pouco valorizado, a casca de cebola, pode, afinal, desempenhar um papel relevante na transição para embalagens mais sustentáveis. Uma investigação da Universidade de Aveiro (UA) demonstra que é possível integrar diretamente casca de cebola moída em bioplásticos, obtendo materiais com melhor desempenho funcional e menor impacte ambiental, sem processos complexos de extração ou purificação.
A investigação do CICECO – Instituto de Materiais de Aveiro, uma das unidades de investigação da UA, baseia-se na incorporação de casca de cebola moída em matrizes à base de amido recuperado de resíduos industriais, nomeadamente das lamas derivadas do processamento de batata. Esta abordagem permitiu desenvolver bioplásticos com propriedades mecânicas melhoradas, maior resistência à água, barreira a gases e atividade antioxidante, requisitos fundamentais para aplicações no setor das embalagens funcionais.
Além do desempenho técnico, o conceito destaca-se por alinhar dois princípios centrais da economia circular: a valorização integral de resíduos e a substituição de matérias-primas fósseis ou alimentares por subprodutos não comestíveis. Desta forma, contribui simultaneamente para a redução do impacte ambiental e da pressão sobre recursos primários.

O trabalho foi desenvolvido pelos investigadores Mariana Vallejo, Beatriz Esteves, Pedro Carvalho, Manuel Coimbra, Martinho Oliveira, Paula Ferreira e Idalina Gonçalves. O trabalho contou ainda com a colaboração do Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV) da Rede de Química e Tecnologia (REQUIMTE) e desenvolveu-se no Departamento de Engenharia de Materiais e Cerâmica, no Departamento de Química, e na Escola Superior Aveiro-Norte.
Um resíduo com elevado potencial de valorização
Embora não existam dados estatísticos públicos e sistemáticos sobre a quantidade de cascas de cebola encaminhadas anualmente para aterro em Portugal, os números globais ajudam a dimensionar o problema. Os investigadores apontam que a produção mundial de cebola ultrapassa os 98 milhões de toneladas por ano, estimando-se que cerca de 5% correspondam a cascas, o que representa aproximadamente 550 mil toneladas de resíduos anuais a nível global.
Atendendo à relevância das indústrias agroalimentar e do processamento de hortícolas em Portugal, os investigadores consideram plausível que vários milhares de toneladas de casca de cebola sejam gerados anualmente a nível nacional, sobretudo por indústrias de descasque, transformação e produção de refeições prontas. Este estudo demonstra que esse resíduo pode tornar-se uma matéria-prima funcional de elevado valor acrescentado.
Tecnologia com proteção por patente e potencial industrial
Um aspeto particularmente relevante, que vai além dos resultados científicos publicados, é o facto de esta tecnologia já se encontrar protegida por patente, evidenciando o seu potencial de transferência para a indústria. A patente descreve a produção de termoplásticos ativos e biodegradáveis a partir de amido não purificado recuperado de resíduos industriais e de casca de cebola, utilizando tecnologias de processamento convencionais, como extrusão ou moldação por compressão.
Os materiais desenvolvidos apresentam estabilidade térmica, atividade antioxidante e propriedades de barreira ajustáveis, podendo ser aplicados em embalagens ativas na conservação de alimentos ou de outros produtos, e em dispositivos médicos. Estas caraterísticas reforçam a maturidade tecnológica da solução e a sua viabilidade à escala industrial.
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