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COP30

Como vi a COP30

Durante duas semanas em Belém, a sensação foi sempre a mesma: o mundo tinha vindo à Amazónia para decidir se continua apenas a falar sobre clima… ou se finalmente faz alguma coisa concreta.

No meio do calor húmido e das filas para entrar na Blue Zone, a voz da ministra Maria da Graça Carvalho surgia sempre com o mesmo refrão: as COP não podem ser só discursos. Ela insistia que não bastam grandes plenárias, fotos oficiais e comunicados inspirados. O que conta são textos finais com metas claras, indicadores, dinheiro identificado e calendários definidos. Sem isso, dizia ela, é só mais um encontro de líderes a prometer o que não cumpre.

Enquanto se repetia à saciedade três palavras‑chave – mitigação, adaptação, transição justa – mote de muitas das conferências nomeadamente no Pavilhão de Portugal e a dada altura, passaram a orquestrar a conferência.

Na mitigação, o ponto de partida era duro: se nada mudar, não vamos para 1,5 ºC, vamos para qualquer coisa como 2,5 ºC. E isso não era apenas um número abstrato – era a constatação de que os planos nacionais (as National Determined Contributions – NDC) falham o objetivo central do Acordo de Paris. Era preciso, portanto, fazer o “balanço de contas” e combinar um plano de correção de rota.

Na adaptação, pela primeira vez se falava com seriedade em ter uma decisão robusta: um quadro global com áreas prioritárias – litoral, cheias, seca, saúde, desertificação – e indicadores comparáveis entre países. E aqui Portugal aparece logo na linha da frente.

Na transição justa, a narrativa ganhava rosto: os pequenos Estados insulares, os países mais pobres, as populações que menos contribuem para o aquecimento global mas que, no entanto, estão na primeira linha das perdas e danos. Os discursos nos painéis eram coerentes. Não pode haver mitigação e adaptação à custa de quem já está de joelhos.

Do lado do financiamento, a narrativa vinha de Baku e chegava a Belém como um fio que era preciso rematar. Em Baku, na COP29, ficara desenhado um modelo para mobilizar 1,3 biliões de dólares por ano até 2035, juntando dinheiro público, bancos multilaterais e o setor privado. Soava impressionante. Mas em Belém ficou claro que o diabo estava nos detalhes: quem paga o quê, como se contabiliza, como se vigia, e como se garante que esse dinheiro chega mesmo à transição climática e à adaptação, em vez de se perder em estatísticas criativas. Como em tudo falta a componente de monitorização.

É nesse contexto que Portugal se apresenta com a sua própria história: Água Que Une. No pavilhão português, a ministra usa esta estratégia como montra do que chama “adaptação concreta”: obras para defender o litoral da erosão, reforço contra cheias em zonas urbanas, investimento em dessalinizadoras no Algarve e em Sines, projetos para reduzir perdas de água nas redes municipais. É água, mas é também narrativa: mostrar que um país relativamente pequeno pode organizar‑se, investir e planear para um clima que já mudou e vai continuar a mudar.

A primeira semana da COP30 começa com solenidade e urgência. A ONU e a presidência brasileira falam num ano simbólico – dez anos depois de Paris – e num momento em que já não chega “manter vivo o 1,5 ºC”; é preciso explicar como é que isso ainda é possível. Líderes de vários países, com Lula em destaque, pedem um roteiro para sair gradualmente dos combustíveis fósseis e um reforço claro do financiamento climático. Fala-se muito da coP da Floresta e da Verdade.

A União Europeia desembarca em Belém com uma lista de exigências: mais ambição nas metas de corte de emissões, um calendário credível para a transição energética, regras fortes de transparência e um objetivo de financiamento mais robusto e previsível. Portugal encaixa‑se aí, sublinhando que quer ser exemplo em adaptação e cooperação, desde a “Água Que Une” às parcerias para enfrentar grandes incêndios.

Mas, à medida que a semana avança, fica evidente o descompasso: há progressos técnicos em adaptação e transparência, sim, mas tudo o que toca a dinheiro e combustíveis fósseis parece emperrar. Os textos circulam, são reescritos, voltam às mesas, e a sensação é de que a evidência científica continua a bater contra um muro político muito duro.

Na segunda semana, o clima aquece dentro e fora das salas. Entra em cena o nível político – ministros, chefes de delegação – e começam os textos que realmente contam.

Sobre a mesa estão quatro grandes dossiês:

  • Como transformar a tal meta dos 1,3 biliões por ano em realidade operacional;
  • Se a decisão final terá, ou não, um roteiro claro para a saída dos combustíveis fósseis;
  • Que quadro global de adaptação será aprovado – com que prioridades, que indicadores, que tipo de compromisso;
  • E como reforçar as NDC e as regras de transparência, para que os números dos países deixem de ser meros exercícios de comunicação.

Enquanto isso, lá fora, a paciência da sociedade civil vai rebentando pelas costuras. Povos indígenas da Amazónia, cansados de discursos sobre “COP da Amazónia” em contraste com a realidade de projetos de petróleo, mineração e grandes obras, bloqueiam entradas, levantam cartazes, gritam palavras de ordem. Num dos momentos mais tensos, um grupo rompe as barreiras e entra na zona restrita. Há empurrões, agentes feridos, acusações de exclusão. E, no entanto, as negociações retomam poucas horas depois, agora com mais barreiras e mais segurança.

Como se o enredo já não fosse suficientemente denso, o penúltimo dia da COP traz o episódio mais cinematográfico de todos: um incêndio na Blue Zone, precisamente na área dos pavilhões nacionais. As chamas sobem pela estrutura, a lona do teto ganha luz laranja, e de um momento para o outro milhares de pessoas são empurradas para as saídas de emergência. Entre 13 e 27 pessoas recebem assistência médica, sobretudo por inalação de fumo e crises de ansiedade, mas não há feridos graves.

Segundo o que pudemos ver nos telejornais, Maria da Graça Carvalho estava na sede da delegação portuguesa, a poucos metros do pavilhão africano onde o fogo deflagra. Quando sente o cheiro a queimado e percebe o que se passa, manda evacuar imediatamente toda a delegação. Os corredores enchem‑se de gente, computadores fechados à pressa, pastas de documentos debaixo do braço. Por várias horas, o centro nevrálgico da COP está desligado, sem eletricidade, à espera do veredito dos bombeiros.

Quando parte da Blue Zone reabre, já é noite. A zona que ardeu fica isolada até ao fim. E o relógio das negociações perdeu um dia inteiro – precisamente quando se tentavam fechar as frases finais sobre fósseis e financiamento.

No fim destas duas semanas, a sensação é ambivalente. De um lado, há avanços reais: um discurso global mais maduro sobre adaptação, atenção renovada à justiça climática, um esqueleto de solução financeira que pode transformar‑se em músculo se for bem preenchido. Do outro, continuam pendurados os grandes nós: o nível de ambição do roteiro para a saída dos combustíveis fósseis, a concretização do novo objetivo de financiamento e a forma como o mundo vai medir, em detalhe, o que faz em adaptação.

Vista de Belém, a posição de Portugal – e da ministra que o representa – acaba por ficar clara: quer um acordo e quer que seja ambicioso, insiste que a adaptação e a justiça climática não podem ficar no rodapé, mostra obra feita em casa e, acima de tudo, não se cansa de repetir que, sem regras claras e dinheiro que chegue mesmo ao terreno, a distância entre Baku, Belém e a realidade das pessoas continuará a medir‑se em promessas por cumprir.

Hoje, 22 de Novembro de 2025, a União Europeia chegou a acordo para aceitar a proposta de texto final da presidência da COP30 sobre alterações climáticas.

“As nossas linhas vermelhas estão todas lá e à última da hora conseguimos um acordo, o que é muito bom“, afirmou Maria da Graça Carvalho aos jornalistas portugueses após uma longa reunião do grupo para chegar a acordo sobre como votar a proposta da presidência brasileira.

O texto não tem uma menção direta aos combustíveis fósseis nem qualquer avanço em relação ao que já tinha sido acordado na COP28, do Dubai, de trabalhar para um abandono progressivo dos combustíveis fósseis. No entanto, mostrou-se uma referência ao que foi acordado no Dubai, uma das exigências da UE, ao incluir no texto o “consenso EAU [Emirados Árabes Unidos]”.

Os 27 conseguiram fazer incluir na proposta inicial os três pontos que queriam: uma maior ambição nas NDC, a referência ao que é preciso fazer para não ultrapassar o 1,5 ºC de aquecimento face aos níveis pré-industriais – a referência ao “consenso EAU” – e o objetivo de triplicar o financiamento para a adaptação dos países em desenvolvimento. De acordo com a nossa Ministra, um não-acordo seria também “uma vitória de quem tentava boicotar este processo“, disse ainda, numa referência ao Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Teresa Ponce Leão
LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia

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Fonte da imagem em destaque: Autor: Jonas Pereira | Crédito: Jonas Pereira/Agência Senado | Direitos de autor: Senado Federal do Brasil | Wikimedia Commons