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Dia Mundial da Energia no ISEP

Dia Mundial da Energia no ISEP: redes inteligentes, armazenamento e Inteligência Artificial para um sistema energético mais resiliente

O Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP), em parceria com a SAJ e a Quadrisol, voltou a afirmar-se como um espaço privilegiado de debate sobre o futuro do setor energético. Assinalando o Dia Mundial da Energia, o auditório da instituição reuniu especialistas, investigadores, docentes e representantes da indústria para refletir sobre alguns dos temas que estão a moldar a transição energética: a estabilidade das redes elétricas, o armazenamento de energia, a Inteligência Artificial e os desafios decorrentes da crescente integração das energias renováveis.

Num momento em que Portugal acelera o seu processo de descarbonização, o seminário serviu também para reforçar a ligação entre o meio académico e o tecido empresarial, reunindo entidades como a REN – Redes Energéticas Nacionais, a E-Redes, a SAJ e a Quadrisol em torno de um objetivo comum: garantir que o sistema elétrico do futuro seja simultaneamente mais sustentável, resiliente e seguro.

Ao longo das diferentes intervenções, ficou clara uma ideia central: a transição energética não depende apenas da instalação de mais capacidade renovável. Exige também redes mais inteligentes, sistemas de armazenamento mais eficientes e uma maior capacidade de adaptação a cenários de instabilidade ou interrupção do fornecimento elétrico.

O ISEP como ponto de encontro do setor energético

A sessão de abertura contou com as intervenções de Roque Brandão, presidente do ISEP, Francisco Pereira, diretor do Departamento de Engenharia Eletrotécnica, Maurício Dias, diretor do Mestrado em Engenharia Eletrotécnica – Sistemas Elétricos de Energia, e Davide D’Alterio, South Europe Sales Director da SAJ. Os intervenientes destacaram a importância de promover iniciativas que aproximem o ensino superior da realidade empresarial e contribuam para a formação de profissionais preparados para responder aos desafios energéticos das próximas décadas.

Recordando a origem do evento, foi sublinhado o percurso do Departamento de Engenharia Eletrotécnica na promoção de encontros dedicados à energia. As atuais comemorações do Dia Mundial da Energia têm raízes nas antigas Jornadas de Máquinas e Instalações Elétricas, organizadas no início dos anos 2000, refletindo a evolução natural de uma escola que tem acompanhado as transformações tecnológicas e energéticas do país.

A qualidade da formação ministrada pelo ISEP foi igualmente destacada. Os participantes recordaram a forte presença de antigos alunos da instituição em empresas de referência do setor energético, reflexo da preparação técnica e científica proporcionada pela escola ao longo de várias décadas. O evento decorreu também num momento particularmente relevante para a instituição, marcado pelo processo de integração do ISEP na futura Universidade Técnica do Porto, encarado como uma oportunidade estratégica para reforçar a investigação, a inovação e a transferência de conhecimento para a sociedade.

plateia no Dia Mundial da Energia no ISEP

A transição energética está a transformar as redes elétricas

Uma das principais conclusões do seminário foi que a transição energética vai muito além da substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis. Trata-se de uma transformação profunda da própria arquitetura do sistema elétrico.

A mesa-redonda dedicada à segurança, estabilidade e controlo das redes elétricas, moderada pelo professor José Beleza de Carvalho, professor coordenador do ISEP, e pelo professor Tiago Andrade, Senior Advisor Energy Markets da REN e professor adjunto convidado do ISEP, contou com a participação de Celso Xavier, Head of Innovation da Finerge, José Miguel Teixeira, responsável pela Operação da MT e BT da E-Redes, Pedro Cabral, da REN, e João Soares, investigador do ISEP/GECAD.

O painel analisou precisamente os desafios decorrentes da alteração acelerada do mix energético nacional e europeu, “a transição energética portuguesa, embora necessária para se atingir as metas da neutralidade carbónica estabelecidas pela União Europeia, está a transformar profundamente a estrutura e o comportamento da rede elétrica nacional”, foi referido durante a sessão.

Os especialistas explicaram que a substituição gradual das centrais térmicas e das grandes centrais hidroelétricas por fontes de produção não síncronas, como a energia eólica e fotovoltaica, está a reduzir a chamada inércia síncrona do sistema. Uma mudança que obriga a repensar os mecanismos tradicionais de estabilidade da rede.

Enquanto anteriormente a frequência e a tensão eram estabilizadas pelas características físicas dos grandes geradores, hoje essas funções dependem cada vez mais de sistemas eletrónicos de potência, algoritmos avançados de controlo e de uma coordenação rigorosa entre os diferentes operadores.

Novos desafios para a estabilidade do sistema

Pedro Cabral, da REN, abordou o papel dos operadores de transporte na identificação das necessidades futuras de reserva, inércia e compensação reativa.

Segundo o responsável, embora a regulamentação europeia tenha evoluído no sentido de reconhecer os mecanismos de capacidade como instrumentos válidos para garantir a segurança de abastecimento, continuam a existir lacunas importantes, “os mecanismos de capacidade não são aplicáveis, por exemplo, a suportar os custos da adequação da inércia, nem o controlo de tensão, nem esse tipo de serviço”.

A conclusão é clara: o mercado de serviços de sistema terá de evoluir para valorizar economicamente tecnologias capazes de fornecer estabilidade, flexibilidade e capacidade de resposta às redes elétricas.

Do lado da distribuição, José Miguel Teixeira, responsável pela operação da média e baixa tensão da E-Redes, descreveu os desafios colocados pela proliferação da produção distribuída, “hoje em dia já é humanamente impossível controlar as centenas de produtores que estão disseminados pela nossa rede de energia”.

Num sistema onde milhares de instalações de autoconsumo, baterias e veículos elétricos passam a interagir com a rede, a digitalização surge como um elemento indispensável para garantir visibilidade e capacidade de operação em tempo real.

Inteligência artificial ao serviço das redes inteligentes

É precisamente neste contexto que a IA começa a desempenhar um papel decisivo. João Soares, investigador auxiliar do ISEP e membro do GECAD, apresentou vários exemplos da aplicação de algoritmos avançados à operação das redes elétricas, “a Inteligência Artificial ajuda-nos a tentar perceber como se comporta a queda de tensão, mesmo sem conhecermos todas as características da rede”. Segundo o investigador, os sistemas baseados em IA conseguem analisar grandes volumes de informação e responder em milissegundos a situações onde os métodos convencionais seriam demasiado lentos.

A combinação entre IA, sistemas de armazenamento e algoritmos de aprendizagem por reforço surge assim como uma das soluções mais promissoras para lidar com a crescente volatilidade da produção renovável. O programa incluiu igualmente a apresentação de um trabalho desenvolvido por António Mendes, diplomado do Mestrado em Engenharia Eletrotécnica – Sistemas Elétricos de Energia, dedicado à conversão de centrais termoelétricas em compensadores síncronos como medida de reforço da estabilidade da frequência dos sistemas elétricos.

SAJ: o armazenamento como peça-chave da transição energética

A componente empresarial do seminário contou com a participação da SAJ, fabricante internacional especializada em eletrónica de potência, sistemas fotovoltaicos e armazenamento energético. Enquanto parceira do evento, a empresa trouxe para o debate uma perspetiva tecnológica sobre os desafios atuais da transição energética e o papel das soluções de armazenamento no futuro do setor elétrico. Com 21 anos de atividade, mais de 1000 colaboradores e presença consolidada no mercado europeu desde 2013, a SAJ tem reforçado a sua aposta em soluções integradas de produção, armazenamento e gestão inteligente de energia, contando com uma forte capacidade industrial e de investigação.

Representando a empresa, Davide D’Alterio, South Europe Sales Director da SAJ, apresentou a evolução tecnológica que acompanha a transformação do setor energético e destacou o papel crescente das baterias na gestão da energia produzida localmente. A sua intervenção centrou-se na forma como o mercado está a evoluir para um modelo energético cada vez mais descentralizado, onde a produção renovável, por si só, já não é suficiente.

Segundo o responsável, o mercado atravessa uma nova etapa da transição energética, marcada pela integração entre produção renovável, armazenamento e gestão inteligente da energia. “Nessa fase da transição, veremos também como esta solução técnica pode contribuir para melhorar e estabilizar um pouco as redes elétricas”, afirmou.

As soluções da SAJ para uma gestão energética inteligente

A SAJ destacou ainda que as soluções de armazenamento já não se destinam apenas a grandes aplicações comerciais e industriais. O desenvolvimento de sistemas adaptados a casas inteligentes demonstra como o armazenamento energético está também a ganhar relevância no setor residencial, permitindo maior autonomia, otimização do autoconsumo e maior resiliência em caso de falha da rede.

por Isabel Martins | fotos Sara Lopes


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