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Economia verde e eletricidade renovável em Portugal

Economia verde e eletricidade renovável em Portugal

A sustentabilidade, a preservação ambiental e a responsabilidade social são temas que respeitam não só às empresas, mas também a todos os cidadãos, estando na base do conceito do Objetivo 7 – Energias Renováveis e Acessíveis – economia verde, uma economia de baixo carbono – dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) – Agenda de 2030.

A economia verde possui três pilares fundamentais para o seu funcionamento: produção, distribuição e consumo. O seu objetivo é promover o crescimento económico ao mesmo tempo que se combate a desigualdade social e se minimizam os danos ao ambiente. É um meio essencial para alcançar os ODS, pelo que é um tema de interesse entre os governantes de todos os países.

Uma economia de baixo carbono implicará assim uma aposta em energias renováveis[1] para produção de eletricidade sem emissões associadas de gases com efeito de estufa ou de quaisquer outras substâncias nocivas para o ambiente, em oposição ao que acontece com a queima de combustíveis fósseis nas centrais termoelétricas.

Vamos abordar neste artigo as mudanças ocorridas na produção de eletricidade em Portugal desde o ano 2000 até à atualidade, com destaque para a produção de eletricidade renovável, e o que se perspetiva para 2030 de acordo com as novas metas estabelecidas na revisão do PNEC 2030[2].

Produção bruta de eletricidade

Entre 2000 e 2023, a produção bruta de eletricidade[3] com origem renovável passou de 30,3% para 75,8% no total da produção de eletricidade em Portugal.

Esta mudança substantiva resulta das políticas públicas que foram estabelecidas ao longo dos anos, focadas no melhor aproveitamento dos recursos energéticos endógenos, na diversificação das tecnologias de produção de energia elétrica e na substituição gradual da produção de eletricidade não renovável pela renovável.

Prevê-se que, no horizonte 2030, a quota de energia renovável no consumo final de energia atinja os 93% (meta revista PNEC 2030).

Portugal tem vindo a aumentar consistentemente a produção de energia elétrica por via das fontes renováveis em detrimento da produção com origem em combustíveis fósseis, como se pode observar na Figura 1.

Produção bruta de eletricidade
Figura 1. Produção bruta de eletricidade [Fonte: DGEG].

Contudo, com o aumento consistente da produção de energia elétrica através de fontes renováveis nem sempre tem sido garantida uma maior produção de energia elétrica renovável, dado que uma boa parte dessa produção, a hidroeletricidade, varia em função do ano hidrológico. Se recuarmos ao ano 2017, caracterizado por uma seca severa, a menor capacidade de produção de energia elétrica a partir das centrais hidroelétricas foi suficiente para que a produção das centrais termoelétricas alimentadas a combustíveis fósseis (carvão, gás natural e, em menor quantidade, os produtos derivados do petróleo) ultrapassasse a produção renovável.

Desde então, a produção renovável superou sempre a produção não renovável e, em 2023, a produção renovável mais que triplicou a produção não renovável. O fim das centrais a carvão e a cada vez menor utilização de gás natural nas centrais de ciclo combinado (o gás natural para produção de energia elétrica está a ser substituído parcialmente pelas renováveis e pelas importações), levou a estes resultados.

Potência instalada renovável

Os valores atuais da produção de energia elétrica renovável só são possíveis devido aos investimentos que foram realizados ao longo das duas últimas décadas, incindindo numa primeira fase numa forte aposta nas eólicas, e mais recentemente, no solar fotovoltaico.

No gráfico da Figura 2 podemos verificar o declínio gradual da potência instalada não renovável, sobretudo a partir de 2011, ano em que atingiu o seu valor máximo (10 GW). Em sentido contrário, verificamos o crescimento contínuo da potência instalada renovável que, em 2023, quase quadruplicou o seu valor em relação ao ano 2000.

Potência instalada das centrais elétricas em Portugal
Figura 2. Potência instalada das centrais elétricas em Portugal [Fonte: DGEG].

Em 2000, a capacidade instalada renovável era de 4,8 GW, representando aproximadamente 43% do total instalado. Em 2023, esses valores passaram a representar, respetivamente, 18,8 GW e 76%.

Em Portugal, as tecnologias de produção de eletricidade renovável incluem a hidroeletricidade, eólico, solar fotovoltaico, biomassa[4] (produção termoelétrica) e outras tecnologias[5]. As centrais hidroelétricas detêm desde longa data a maior potência renovável instalada do país. Porém, este cenário está a mudar de forma muito significativa. Em 2000 esta componente representava 89% da potência total instalada renovável, mas em 2023 caiu para menos de metade, conforme se pode observar na Figura 3.

Distribuição da potência instalada das centrais elétricas renováveis em Portugal
Figura 3. Distribuição da potência instalada das centrais elétricas renováveis em Portugal [Fonte: DGEG].

Em 2023, a capacidade instalada das centrais hidroelétricas quase duplicou relativamente a 2000 (fig. 4), e já igualou o valor perspetivado para 2025 que é idêntico à meta da revisão do PNEC 2030, estabelecida em 8,1 GW.

Evolução da potência instalada das centrais hidroelétricas em Portugal
Figura 4. Evolução da potência instalada das centrais hidroelétricas em Portugal [Fonte: DGEG; PNEC 2030].

Como anteriormente referido, esta tecnologia está muito dependente do clima, pelo que a incerteza da sua produção terá sempre de ser compensada por outras tecnologias.

Uma das tecnologias que mais cresceu no período em análise foi a eólica, com um aumento considerável da potência instalada, que aumentou 71 vezes entre 2000 e 2023 (Figura 5).

Evolução da potência instalada das centrais eólicas em Portugal
Figura 5. Evolução da potência instalada das centrais eólicas em Portugal [Fonte: DGEG; PNEC 2030].

Esta tecnologia ultrapassou a potência instalada das centrais de biomassa (em 2004), sendo, desde então, a segunda tecnologia com maior capacidade de produção de energética elétrica renovável do país.

As políticas públicas relativas ao setor energético elétrico mantêm uma forte aposta nesta tecnologia, prevendo-se que, de acordo com a revisão do PNEC 2030, no horizonte de 2030 se atinja uma capacidade instalada 12,4 GW, mais do dobro da capacidade registada em 2023. É certo que ainda estamos longe de alcançar esta meta, contudo vamos no bom caminho considerando o valor de 6,3 GW que se perspetiva para 2025.

É importante referir que a meta de 12,4 GW para 2030 inclui 2 GW de eólica offshore. Atualmente, está instalada uma potência 25 MW, referente ao projeto Windfloat Atlantic, o primeiro parque eólico marítimo flutuante na Europa continental.

Relativamente à capacidade instalada das centrais termoelétricas a biomassa, a sua evolução é um pouco semelhante às das centrais hidroelétricas, diferindo basicamente nos valores das respetivas potências instaladas (Figura 6).

Evolução da potência instalada das centrais termoelétricas a biomassa em Portugal
Figura 6. Evolução da potência instalada das centrais termoelétricas a biomassa em Portugal [Fonte: DGEG; PNEC 2030].

Relativamente a esta tecnologia, a capacidade instalada duplicou no período em análise. Contudo, tem perdido gradualmente a sua importância no mix da produção renovável, conforme se pode observar na figura 3. No que respeita ao que se perspetiva para 2025 e para 2030 em termos de potência instalada, a trajetória é favorável, existindo apenas um pequeno diferencial de 0,44 GW para o cumprimento da meta 2030.

O solar fotovoltaico é a tecnologia de produção de eletricidade renovável que merece maior destaque, tendo em 23 anos passado de pouco mais de 1 MW para 3,9 GW, ou seja, evoluiu exponencialmente como se pode observar na Figura 7, crescendo com uma taxa média anual de 42,1%.

Evolução da potência instalada das centrais fotovoltaicas em Portugal
Figura 7. Evolução da potência instalada das centrais fotovoltaicas em Portugal [Fonte: DGEG].

Para se ter uma melhor noção do que se perspetiva no PNEC 2030, relativamente ao aumento da potência instalada das centrais fotovoltaicas para os próximos 5 anos, observe-se a Figura 8.

Evolução da potência instalada das centrais fotovoltaicas em Portugal
Figura 8. Evolução da potência instalada das centrais fotovoltaicas em Portugal [Fonte: DGEG; PNEC 2030].

A cumprir-se a meta de 20,8[6] GW significa que, daqui a 6 anos, o paradigma da produção renovável de energia elétrica em termos de potência instalada mudará por completo, com esta tecnologia a assumir a liderança da produção renovável, com uma potência instalada próxima da soma das potências instaladas hidroelética e eólica.

A meta de 20,8 GW para o horizonte 2030 resulta de uma estimativa de potência de 15,1 GW para produção centralizada (grandes centrais fotovoltaicas) e de 5,7 GW para produção descentralizada (Mini/Micro Produções, Unidades de Pequena Produção (UPP) e as Unidades de Produção para Autoconsumo (UPAC), que abrangem o autoconsumo individual, coletivo, e as comunidades de energia renovável (CER)).

Concluímos o artigo afirmando que a descarbonização do sistema eletroprodutor, por via da substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renováveis para produção de eletricidade, tem contribuído  muito para uma economia que se pretende cada vez mais verde, mais sustentável e mais ecológica.

Esta mudança contribuiu também para a redução da dependência energética do país, que no passado estava sujeita às importações de carvão, de fuelóleo e mais tarde de gás natural, para produção de eletricidade. Em 2000, esta dependência energética atingia os 85,7% e em 2023 o valor foi de 66,7%, aproximando-se da meta do PNEC 2030, estabelecida em 65%.


[1] Objetivo 7 – Energias Renováveis e Acessíveis, ODS – Agenda 2030.

[2] Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030).

[3] Produção bruta de eletricidade exclui o consumo próprio das centrais produtoras, bombagem hidroelétrica, saldo importador e as perdas de transformação e distribuição.

[4] Inclui resíduos vegetais/florestais, licores sulfítivos, biogás e resíduos sólidos urbanos.

[5] Inclui a geotermia (Região Autónoma dos Açores, 34 MW) e, experimentalmente, a energia das ondas (400 – 700 kW) durante o período 2010 – 2018.

[6] Inclui capacidade instalada para a produção de hidrogénio verde.

António Almeida
Técnico Especialista na Direção de Formação, Informação e Educação

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