Curiosamente, esta diversificação do uso da biomassa lenhosa, ainda que esmagadoramente derivada de sobrantes florestais, isto é, material sem outra utilização económica na cascata de valor dos produtos florestais, é frequentemente vista como uma ameaça ao setor florestal tradicional. Apontam-se razões como a escassez ou a pressão nos preços de madeira, mas todos os anos ardem mais de 100 mil hectares de floresta e são libertadas, gratuitamente e sem em produzir qualquer energia, muitos milhares ou mesmo milhões de toneladas de CO2. E é aqui, nas causas que levam aos incêndios, que se deve concentrar o principal foco e as preocupações do setor.
O grande papel das florestas até ao início do século XVI foi essencialmente para alimentar a construção naval. Esta atividade, intensa durante a época de ouro dos descobrimentos, associada à necessidade de produzir alimentos, à emigração e às guerras, conduziu a uma desflorestação significativa do território nacional ao ponto de, no terceiro quarto do do século XIX, se ter fixado em apenas 640 mil hectares[1], ou seja, apenas cerca de 7% da área total de Portugal. Só para se ter uma ideia comparativa, a área ardida de floresta nos incêndios de 2017 atingiu cerca de 539 mil hectares.
Os primeiros trabalhos de inventário para as áreas florestais visaram essencialmente a identificação da área inculta disponível para a cultura florestal, que na altura representa “duas de três partes do país”[2]. O relatório de 1868 de Carlos Ribeiro e Joaquim Filipe Nery, acerca da arborização geral do país, vem confirmar esta realidade, indicando o valor de 4.314 milhares de hectares para a área de incultos, praticamente metade da área do país.
Atualmente a situação está completamente alterada. Com as sucessivas campanhas de florestação iniciadas nos anos trinta, a área florestal cresceu de 7% para 36%, de acordo com o 6.º Inventário Florestal Nacional de 2015, conduzido pelo ICNF, ou mesmo para 39%, de acordo com a Carta de Uso e Ocupação do Solo de Portugal Continental de 2018, produzida pela Direção Geral do Território.
As florestas representam hoje em Portugal um recurso valioso e insubstituível que associamos à biodiversidade, preservação dos solos e como fonte de lazer, com uma contribuição significativa para a economia nacional. Mas o que está realmente por detrás deste retrato instantâneo?
Tomemos como exemplo a florestação das serras do interior de Portugal, uma das iniciativas centrais dos planos de povoamento florestal no início do século XX, cujo objetivo foi o de mitigar problemas ambientais, económicos e sociais em regiões montanhosas, caracterizadas por solos pobres, pastoreio excessivo, abandono agrícola e vulnerabilidade à erosão. Neste contexto a floresta aparece como uma solução para combater a erosão dos solos em encostas íngremes, prevenir a desertificação e proteger os recursos hídricos.
Serras áridas e com pouca vegetação como a Serra da Estrela, Lousã, Açor e Gardunha, no Centro do país, e a Serra do Gerês, Cabreira, Peneda e Marão, no Norte, foram colonizadas com Pinheiro-Bravo (Pinus pinaster), espécie adaptada a solos pobres e com rápido crescimento. Muitas das áreas plantadas eram baldios, terrenos comunitários que foram apropriados pelo Estado ou concessionadas para florestação, muitas vezes gerando tensões com comunidades locais que as utilizavam para pastoreio.
[1] A primeira avaliação formal da área florestal data de 1875, na sequência do trabalho do militar Gerardo Pery, publicado em “Geografia e Estatística Geral de Portugal e Colónias como um Atlas”.
[2] VANDELLI, Domingos – 1789d
João Correia Bernardo
Presidente do Conselho de Administração do CBE
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