Nos próximos parágrafos, exploramos os desafios e oportunidades ligados ao aproveitamento de biomassa e resíduos em Portugal, enquanto matéria-prima para a produção de gases renováveis.
De resíduos a energia limpa
Muitos dos resíduos sólidos urbanos, agrícolas, florestais e de tratamento de águas residuais constituem fontes relevantes de biomassa residual, que pode ser usada na produção de diferentes gases renováveis. Entre os principais destacam-se o biogás, o biometano, o gás de síntese e o hidrogénio renovável – cada um com caraterísticas e processos distintos.
- Biogás – gerado por digestão anaeróbia, um processo biológico no qual microrganismos decompõem matéria orgânica (como estrume, lamas de ETAR ou resíduos alimentares) na ausência de oxigénio. O resultado é um gás com alto teor de metano (40%–75%), acompanhado por dióxido de carbono e outros compostos. Este pode ser utilizado localmente para eletricidade e calor, ou purificado para produzir biometano, um substituto renovável e compatível com o gás natural.
- Gás de síntese (do inglês “synthesis gas – syngas”) – obtido por gaseificação, um processo termoquímico que converte resíduos secos (como biomassa florestal ou frações não recicláveis) numa mistura essencialmente de monóxido de carbono e hidrogénio. Este gás pode ser utilizado diretamente ou transformado noutros combustíveis renováveis, como metano sintético ou metanol.
- Hidrogénio (H2) renovável – pode também ser produzido a partir de biomassa, através de processos de gaseificação, conversão bioquímica, pirólise ou reformação do biogás. Embora a sua aplicação esteja ainda em desenvolvimento, representa uma alternativa promissora ao hidrogénio de origem fóssil.
Estes gases partilham uma caraterística fundamental: versatilidade. Servem para produzir calor, eletricidade, combustíveis para transportes ou matérias-primas para a indústria. Além disso, são compatíveis com infraestruturas energéticas existentes, como as redes de gás natural, o que facilita a sua integração sem necessidade de grandes investimentos adicionais.
Circularidade de resíduos: o potencial ainda por concretizar
O aproveitamento energético da biomassa residual está muito aquém do seu potencial. Embora haja projeções que apontam para uma ampla disponibilidade deste recurso, grande parte continua imobilizada ou subvalorizada, devido à falta de cadeias logísticas eficazes e de uma estratégia nacional coerente [1].
A separação e valorização seletiva de resíduos orgânicos em Portugal são, ainda, insuficientes. A taxa de reciclagem de resíduos sólidos urbanos situa-se abaixo dos 50%, e a recolha separada de resíduos orgânicos é limitada. No tratamento de águas residuais, por exemplo, a grande maioria das estações de tratamentos (ETARs) não valoriza os lodos gerados, que acabam frequentemente em aterro. Em contraste, países como a Alemanha, Holanda ou Dinamarca, dão clara prioridade à digestão anaeróbia, promovendo assim a valorização energética desses resíduos.
Na agricultura e silvicultura, a situação é semelhante. A biomassa florestal residual, frequentemente associada à limpeza de matos e gestão de combustíveis florestais, não é mobilizada de forma sistemática. Como consequência, o material combustível acumula-se no terreno, agravando ainda mais o risco de incêndios num país já marcado por uma elevada propensão estrutural a fogos rurais. Esta inação compromete não só a resiliência dos ecossistemas, como também a segurança das populações rurais.
Estratégia push: mobilizar e diversificar usos
Este bloqueio sistémico entre potencial e aproveitamento real deve ser superado com uma estratégia push coordenada, centrada na mobilização ativa da matéria-prima. Tal estratégia deve começar pelo mapeamento rigoroso do potencial de resíduos, tanto em quantidade, como em localização, seguido do desenvolvimento das infraestruturas e processos necessários à sua mobilização, recolha e transporte.
Para que esta matéria-prima tenha impacto real na produção de gases renováveis e assim na transição energética, é necessário diversificar as suas aplicações e privilegiar usos com elevado valor acrescentado para o sistema energético. Isso significa canalizar estes gases renováveis para setores difíceis de descarbonizar, como a indústria pesada ou os transportes de longo curso, onde outras alternativas de baixo carbono possam não ser tão adequadas. Esta priorização maximiza o contributo dos gases renováveis para os objetivos nacionais de neutralidade carbónica.
Vasco Zeferina, Senior Energy Modeller na Ofgem (Reino Unido)
Telmo Lopes, Business Developer na TNO (Países Baixos)
Future Energy Leaders Portugal / Associação Portuguesa da Energia
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- Artigo “Gases renováveis: vetores da transição energética” da edição 62 da Renováveis Magazine;
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