mini-redes solares em meios rurais de países
emergentes – como otimizar a gestão?

A implementação de centrais solares fotovoltaicas em meios rurais, em países emergentes, traz desafios em várias vertentes.

A implementação de centrais solares fotovoltaicas em meios rurais, em países emergentes, traz desafios em várias vertentes.
De um modo geral, e sendo um país emergente um país com desenvolvimento humano (IDH) baixo, significa que, entre outros índices não tão relevantes para o assunto deste artigo, estaremos a falar de contextos com um índice de anos médio de estudos baixo, um índice de anos esperados de escolaridade também baixo e paridade de poder de compra baixo (população com baixo poder aquisitivo) (PNUD, 22).
Analisando os países com IDH baixo, podemos, facilmente, perceber que são os mesmos que figuram na lista de países com maior instabilidade política (economy, 22) e maior perceção de corrupção (international, 22).


Como contornar estes fatores? Qualificações de recursos humanos

Os recursos humanos, em países com baixo IDH, têm, por norma, qualificações abaixo do que se consideraria necessário para o exercício de gestão de uma mini-rede fotovoltaica, sendo este problema mais grave em contexto rural, onde as qualificações tendencialmente são mais baixas que nos meios urbanos. As centrais solares fotovoltaicas devem ser geridas da mesma forma que são geridas outras empresas, aplicando-se estratégias que se possam adaptar a tempos de crise, ágeis, e capazes de inovar. Deste modo, contornar a problemática da mão-de-obra com baixas qualificações, pode ser feito através de uma supervisão externa ao meio rural ou mesmo ao próprio país, dando-se acesso a uma mão-de obra qualificada e capaz de readaptar a gestão ao que não é expetável, inovar, e ao mesmo tempo formar recursos humanos locais, preparando-os para uma eventual passagem de pasta a longo prazo.

Instabilidade política

A constante instabilidade política nestes contextos pode, também, trazer consequências a nível da gestão, com uma certa fragilidade ao nível das estruturas e conflitos de interesses, que, a médio prazo, comprometerão o funcionamento da central.
Dependendo do modelo de gestão aplicado, e da propriedade da central, a criação de uma concessão externa e independente do poder político, permitirá mitigar alguns dos riscos associados à problemática da instabilidade.
Dependo do contexto exato, e sempre que necessário, podem ser associadas à gestão, figuras não eleitas com perfil mais técnico, que, normalmente, não estão sujeitos à mesma rotatividade, trazendo assim processos de maior estabilidade.


Baixo poder aquisitivo

A aportação de energia elétrica a um meio rural, com parcos recursos e baixo poder aquisitivo, vem, por si só, resolver uma parte do problema, trazendo uma nova dinâmica à economia local, permitindo a criação de novos tipos de negócios, criação de emprego, e, consequentemente, aumentando o poder de compra.
Sendo a produção de energia nas centrais solares mais barata durante o dia e sendo este, normalmente, o período de maior consumo por parte dos negócios locais e serviços, que são ao mesmo tempo os grandes consumidores, poderá aqui haver apoio por parte do setor económico ao privado, que nestes contextos é bastante mais carenciado, permitindo uma diferença tarifária entre ambos, para que os pequenos consumidores possam usufruir de uma tarifa social.
Não obstante, deve existir sempre um tarifário com um preço reduzido para o horário onde a energia é consumida, diretamente, dos módulos fotovoltaicos, promovendo a utilização de energia durante o dia, permitindo, assim, um banco de baterias mais pequeno e com maior longevidade.
Dadas as dificuldades de pagamento por parte dos consumidores, um método eficaz que garante a eliminação de dívidas, que por muitas vezes se tornam insustentáveis e impossíveis de saldar, é o pré-pagamento. Este método funciona com a geração de tokens após pagamento, permitindo haver um maior controlo dos consumos por parte do consumidor. Apesar de eficiente, este método não promove os consumos. Mesmo havendo um menor número de vendas de energia, haverá uma garantia de entrada de dinheiro correspondente à venda.


Altos índices de corrupção

Sendo a corrupção abuso de um poder para ganhos próprios, o que dificulta o desenvolvimento económico e promove desconfiança, deve ser controlada de forma a garantir a sustentabilidade das centrais solares, seja qual for o modelo de negócio aplicado.
O controlo financeiro da central através de entidades externas (públicas ou privadas), terá de ser feito através de um cruzamento de dados eficiente (entrada de dinheiro com saída de energia) e poderá,
também, passar pela eliminação de dinheiro físico. Para tal, podem utilizar-se as operadoras móveis, para garantir transações, já que não é comum o uso de terminais bancários nestes contextos, mas bastante comum o uso de telemóveis e deste tipo de transações.


Exemplo prático

A TESE encontra-se, de momento, a implementar uma central fotovoltaica e respetiva rede elétrica, com modelo de gestão associado, na cidade de Bolama, na Guiné-Bissau.
De forma a contornar alguns dos desafios acima mencionados, está a ser desenvolvido um software de faturação e carregamento de contadores. Este software tem integrada a geração de tokens para contadores pré-pagos e a faturação aos clientes.
Apesar de permitir o pagamento em numerário, irá promover o pagamento através das operadoras móveis, diminuindo a circulação de dinheiro, e, consequentemente, os riscos de corrupção associados. A evolução da tecnologia e a disponibilidade de internet possibilitam um controlo da faturação a nível remoto, sendo possível cruzar os dados de faturação com a geração de tokens, assim como um apoio técnico remoto mais especializado, por exemplo na otimização de tarifários e horários tarifários ao longo do tempo.

O desenvolvimento deste software permite, também, níveis de acesso a diferentes funcionalidades, dependendo do utilizador, podendo haver um maior controlo na gestão financeira.

Alfredo Pais
Gestor Setorial da Energia, TESE

Translate »