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não há transição energética sem pessoas

Não há transição energética sem pessoas

“Na transição energética, não precisamos de espectadores, mas sim de protagonistas”. Esta afirmação resume um dos maiores desafios que Portugal enfrenta para cumprir as suas metas climáticas: garantir que existe talento humano qualificado suficiente para concretizar a transformação do setor energético.

Portugal enfrenta uma década decisiva no setor energético. Até 2030, o país comprometeu-se a reduzir em 55% as emissões de gases com efeito de estufa face a 2005 e a atingir 51% de energias renováveis no consumo final bruto. Estes objetivos, inscritos no Plano Nacional Energia e Clima (PNEC 2030), implicam acelerar projetos solares, eólicos, de eficiência energética e redes inteligentes, colocando enorme pressão sobre o mercado de trabalho especializado. ​

Na mobilidade elétrica, a meta é clara: triplicar a rede de carregamento público para chegar a cerca de 36 mil pontos em 2030, acompanhando o crescimento da frota elétrica. Já no hidrogénio verde, a Estratégia Nacional prevê 2 a 2,5 GW de eletrolisadores instalados, bem como até 100 postos de abastecimento, garantindo a integração gradual de hidrogénio renovável na rede de gás natural e nos consumos energéticos. ​

Para cumprir estas metas ambiciosas, o setor da eletricidade renovável e combustíveis renováveis irá empregar mais de 200 000 pessoas até 2030, representando quase 6% do PIB nacional, segundo o estudo da Deloitte para a APREN. Este número contrasta fortemente com os atuais cerca de 51 000 trabalhadores no setor, evidenciando a necessidade de praticamente quadruplicar a força de trabalho qualificada em apenas alguns anos. ​

Todos estes avanços dependem, acima de tudo, de pessoas qualificadas. Engenheiros, técnicos certificados, juristas e gestores especializados em energia serão peças-chave na transição. Porém, a oferta está aquém da procura.

O paradoxo português: formar muito, mas não chegar

Portugal destaca-se internacionalmente pela formação de engenheiros: cerca de 20% dos diplomados do ensino superior são das áreas de engenharia, a segunda percentagem mais alta da União Europeia, logo após a Alemanha. A engenharia eletrotécnica é particularmente forte com cursos disponíveis em praticamente todas as universidades e politécnicos do país.​

A Ordem dos Engenheiros regista cerca de 12 000 membros no Colégio de Engenharia Eletrotécnica, representando 20% de todos os engenheiros inscritos em Portugal – um peso excecional para um país com pouco mais de 10 milhões de habitantes.​

Contudo, o número de recém-licenciados anualmente em engenharia eletrotécnica ronda apenas os 1200 a 1400 profissionais, manifestamente insuficiente para as necessidades do mercado. “Temos sempre uma pool de pedidos muito grande e agora as empresas aparecem nas apresentações de projeto para fazer uma captação direta aos estudantes“, confirma Carla Lopes, do Politécnico de Leiria, numa entrevista recente.

A escassez num país que forma engenheiros

Portugal é o terceiro país do mundo com maior escassez de talento, com 84% dos empregadores a reportar dificuldades em contratar. No setor de Energia e Utilities, a escassez atinge 80-89% das empresas, segundo relatório da ManpowerGroup de 2025.

Como é possível este paradoxo? Três fatores explicam-no:

  • emigração qualificada (muitos engenheiros formados em Portugal trabalham no estrangeiro),
  • crescimento acelerado da procura pela transição energética (que o sistema educativo não consegue acompanhar ao mesmo ritmo), e
  • desalinhamento entre formação e necessidades específicas do mercado.

O aumento consistente no número de Técnicos Responsáveis de Instalações Elétricas (TRE) na Direção Geral de Energia e Geologia registados anualmente demonstra a crescente atratividade da área e a pressão do mercado por profissionais qualificados neste segmento.

Oportunidades reais num setor em expansão

A falta de profissionais está a traduzir-se, de forma muito direta, em novas oportunidades de emprego e de progressão na carreira – e não apenas para técnicos e engenheiros. A transição energética está a abrir portas para profissionais de áreas aparentemente periféricas: juristas especializados em regulação, designers de interfaces para sistemas de gestão energética, especialistas em comunicação e sustentabilidade, e gestores de recursos humanos são agora requisitados pelas empresas do setor. Para muitos profissionais em reconversão de carreira, esta é uma oportunidade de se reposicionar num mercado em expansão.

Tem-se verificado um aumento significativo de inscrições nas ações de formação do IEFP que dão acesso à atividade de Técnico Responsável de Instalações Elétricas. Este aumento parece resultar, em parte, das atuais restrições à imigração definidas pelo Governo: para muitos formandos estes cursos são uma via de regularização da sua situação em Portugal, com a perspetiva de empregabilidade praticamente garantida nos próximos anos.

O setor solar fotovoltaico, em particular, é atualmente “o que mais recruta no âmbito das energias renováveis” em Portugal, enquanto o eólico offshore pode criar até 95 000 postos de trabalho diretos e indiretos – uma oportunidade sem precedentes para profissionais em transição de carreira segundo Marco Alves, CEO do centro de investigação português Wavec Offshore Renewables.

Portugal enfrenta inclusivamente escassez de eletricistas, com jovens a desinteressarem-se pela profissão devido a salários considerados pouco atrativos. Contudo, a pressão da procura está a começar a fazer subir as remunerações e a melhorar as condições oferecidas, à medida que as empresas competem por profissionais qualificados. Este é um fenómeno particularmente importante: a melhoria de salários e condições nos profissionais técnicos em falta cria efeito cascata noutras áreas, tornando o setor cada vez mais atrativo para quem procura mudança de carreira.

Estratégias inovadoras para construir talento

Face a este cenário, as empresas estão a confirmar a sua aposta em estratégias inovadoras que lhes permitam criar esse talento internamente. Programas de reskilling (reconversão profissional) e upskilling (melhoria de competências) tornaram-se instrumentos essenciais para responder à escassez. Mas não basta formar: é fundamental atender às prioridades dos trabalhadores em termos de retribuição competitiva, mas também garantir mais flexibilidade e autonomia no trabalho.​

O Centro de Formação para a Transição Energética (CTE), criado em 2023 pela união entre IEFP, ADENE e APREN, exemplifica esta abordagem estratégica. Com a missão de formar profissionais nas áreas de energias renováveis, hidrogénio verde, eficiência energética e mobilidade sustentável, o programa “Trabalhos & Competências Verdes” prevê formar 25 000 pessoas: 12 500 trabalhadores em processos de requalificação e reconversão profissional e 12 500 pessoas em formações de longa duração.​

A Aliança para a Transição Energética (ATE), que envolve 52 empresas e 28 entidades do sistema de investigação e inovação, prevê criar 420 postos de trabalho diretos qualificados e mais de 700 oportunidades totais, com um volume de negócios anual estimado em 550 milhões de euros. Estas iniciativas demonstram que o setor está a assumir um papel ativo na criação do talento necessário.​

Um exemplo concreto: no 1.º semestre de 2024, apenas no Norte de Portugal, um pacto entre 37 empresas e a Ordem dos Engenheiros permitiu contratar mais de 600 recém-licenciados, “evitando desta forma que saíssem do país“, e promoveu “o regresso de 56 profissionais que se encontravam a trabalhar no estrangeiro”. Estas empresas comprometeram-se não apenas a aumentar remunerações, mas também a garantir progressão na carreira, autonomia e condições de trabalho mais flexíveis.​

Paulo Castelão
Future Energy Leaders Portugal

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