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energia solar em Portugal

O futuro da energia solar em Portugal

Portugal reúne excelentes condições para a produção de eletricidade renovável, tendo os ingredientes necessários para expandir a sua carteira fotovoltaica. Não obstante, enfrenta o desafio de consolidar a sua estratégia para assegurar a urgente transição energética.

Nos últimos anos, apesar das diversas dificuldades no desenvolvimento de novos projetos, o país foi conseguindo ver nascer nova capacidade renovável. Em 2024 duplicou a capacidade instalada de centrais solares ligadas à rede[1] e, desde aí, tem vindo a bater recordes de produção solar.

Após um 2024 particularmente forte, com 1,8 GW de nova capacidade adicionada, este ano os volumes reduziram significativamente, com 773 MW[2] de energia solar instalada entre janeiro e setembro de 2025 (no primeiro homólogo registava-se 1,1 GW). Ainda assim, este incremento permitiu que a energia solar fosse a principal fonte de geração, com 20,1%[3], durante o mês de junho, acima da energia eólica, hídrica e gás natural (Figura 1).

Evolução da Produção de Eletricidade por fonte em Portugal continental (setembro 2023 a setembro 2025)
Figura 1. Evolução da Produção de Eletricidade por fonte em Portugal continental (setembro 2023 a setembro 2025). Fonte: REN, análise APREN.

Portugal continua a brilhar contando com um total de 6,5 GW2 de potência solar instalada, mas há sinais de que o ímpeto está a abrandar. Apesar do crescimento, e pela primeira vez em 5 anos, o ritmo de instalação de nova capacidade fotovoltaica está a diminuir, o que é bastante preocupante, considerando a meta de 20,8 GW vertida no Plano Nacional de Energia e Clima para 2030 (PNEC 2030).

A escassez de disponibilidade de rede continua a ser um dos principais obstáculos do setor renovável, a par com a morosidade e obstáculos do processo de licenciamento. Atualmente, existe um número significativo de projetos que, apesar de disporem de terrenos arrendados e se encontrarem em fase de conceção, continuam sem as devidas autorizações. Outros, já licenciados, permanecem parados por falta de decisão ou atraso na emissão de autorizações municipais. Estas não são, contudo, as únicas situações de entrave: persistem outros bloqueios de natureza administrativa e regulatória que continuam a dificultar o avanço dos investimentos, gerando incerteza, aumento de custos e desmotivação entre os promotores.

Esta incerteza poderia ser colmatada através da correta e eficaz transposição da Diretiva Europeia das Renováveis (RED III), que continua a carecer da implementação de um sistema digitalizado, com o balcão único, e centralização de processos e alinhamento de Stakeholders para que não haja entraves desmedidos e redundância entre entidades.

Há uma necessidade urgente de desenvolver novos pontos de ligação através da expansão e modernização das redes, conforme descrito no mais recente Plano de Desenvolvimento e Investimento da Rede de Transporte de Eletricidade (PDIRT-E) e também no Plano para a Rede de Distribuição (PDIRD-E), ainda pendentes de aprovação pelo governo. Por outro lado, é necessário dar prioridade aos projetos de hibridização, de forma a otimizar o uso da rede. Sem reforçar, otimizar e digitalizar a rede, Portugal arrisca ver centenas de projetos viáveis parados no papel.

Adicionalmente, é também fundamental assegurar a total implementação da diretiva do mercado interno da eletricidade, garantindo a promoção de contratos de longa duração que reforcem a estabilidade e previsibilidade do setor. Entre estes, destacam-se os contratos de aquisição de energia (PPAs), que permitem a celebração direta de acordos entre produtores e consumidores a preços estáveis, e os contratos por diferenças bidirecionais (CfD), que asseguram um retorno mínimo aos investimentos em novas centrais renováveis – como eólicas, solares, geotérmicas e hidroelétricas sem reservatório – evitando simultaneamente custos excessivos para o sistema em contextos de elevada volatilidade de preços.

Paralelamente, Portugal deve continuar a promover o autoconsumo e as comunidades de energia para otimizar a produção e o consumo locais, aumentar a flexibilidade e a resiliência do sistema e, simultaneamente, promover a participação da população na transição energética.

A aceitação social é igualmente crucial para assegurar um desenvolvimento do setor equilibrado, onde são integradas as comunidades locais e as partes interessadas territoriais no diálogo para assegurar o seu envolvimento e garantir que os projetos renováveis proporcionem benefícios locais visíveis.

A APREN defende também que estes projetos devem abraçar abordagens positivas para o ambiente, que transformem os projetos renováveis em alavancas para a restauração dos ecossistemas e ganhos em termos de biodiversidade. Ao alinhar os objetivos energéticos e ambientais, as energias renováveis podem tornar-se motores ativos da resiliência territorial, em vez de fontes de conflito.

Em 2025, Portugal é um mercado solar em rápida expansão, mas ainda em transição: bem-sucedido, mas altamente dependente da implementação eficaz de políticas e do planeamento estratégico da rede para realizar todo o seu potencial até 2030. A pressão para cumprir as metas nos próximos cinco anos é significativa, uma vez que o PNEC prevê que 93% da eletricidade[4] seja renovável até 2030 (excluindo a produção de hidrogénio). Estas metas posicionam a energia solar fotovoltaica como um pilar fundamental na estratégia de descarbonização do país.

O abrandamento atual não deve ser encarado como inevitável. É, sobretudo, um alerta de que a transição energética precisa de uma nova fase: mais inteligente, mais distribuída e mais integrada.


[1] https://www.ren.pt/media/noticias/energia-solar-ligada-a-rede-de-transporte-duplicou-em-2024

[2] Estatísticas rápidas DGEG – setembro 2025

[3] APREN Boletim Renováveis – junho

[4] PNEC 2030 – outubro de 2024

Stela Brito e Mariana Cruz de Carvalho

APREN – Associação Portuguesa de Energias Renováveis
Tel.: +351 213 151 621
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