Nas últimas décadas, Portugal tem assistido a uma aposta clara em fontes de energia renovável como forma de tornar o sistema eletroprodutor mais sustentável. Contudo, esta integração tem sido maioritariamente feita através de fontes renováveis intermitentes, como as energias solares fotovoltaica e eólica, que impõem desafios à operação das redes de transporte e distribuição. A gestão do sistema tem sido essencialmente assegurada por centrais térmicas a combustíveis fósseis e por grandes centrais hidroelétricas. No entanto, a progressiva diminuição da utilização dos combustíveis fósseis para a produção de eletricidade (essencialmente gás natural) e a variabilidade interanual do recurso hídrico colocam em causa o futuro deste balanço.
É neste contexto que os sistemas de bombagem hidroelétrica reversível se apresentam como soluções técnicas para mitigar os efeitos da intermitência, ao permitirem armazenar o excedente de produção renovável em períodos de baixa procura, disponibilizando essa energia quando a geração não acompanha a procura.
A importância da bombagem hídrica, os objetivos nacionais assim como o panorama europeu atual, constituem os principais temas em análise.
Princípio de funcionamento
Distintamente de um aproveitamento hídrico convencional, a bombagem hídrica requer dois reservatórios, um a jusante e outro a montante, existindo interligação entre ambos através de tubagem comum. Estes aproveitamentos podem funcionar como a hídrica convencional, produzindo energia quando a água transita do reservatório superior para o inferior; ou bombeando água do reservatório inferior para o superior, armazenando energia para mais tarde. A Figura 1 esquematiza o princípio de funcionamento destes aproveitamentos de forma simplificada.

Apesar das centrais hidroelétricas de bombagem consumirem mais energia do que produzem, permitem dotar o sistema elétrico de flexibilidade. Atualmente, são efetivamente a forma mais madura, flexível e economicamente eficiente de armazenar energia em grande escala. Permitem equilibrar a rede elétrica, não só durante as flutuações impulsionadas pela procura (produzindo energia), como também durante o excesso de produção (consumindo energia através da bombagem).
Panorama nacional
Em 2024, Portugal já contava com cerca de 3,6 GW de bombagem hídrica, perto da meta definida pelo Plano Nacional de Energia e Clima para 2030 (PNEC 2030) de 3,9 GW. [1]

Destaca-se a construção da barragem de Gouvães em 2022, que contempla bombagem e se encontra inserida no complexo hidroelétrico do Tâmega. Este sistema inclui 1 158 MW de capacidade instalada de hídrica convencional e dois parques eólicos que totalizam 274 MW. Este sistema opera como uma enorme bateria e encontra-se em pleno funcionamento desde o final de 2024. [1][2]
Panorama europeu
Na União Europeia (UE), a implementação de bombagem já atingiu valores significativos, contabilizando-se 45,3 GW instalados, distribuídos conforme a Figura 3. [5]
Márcio Sobral
Técnico Especialista da área de Informação e Educação – Direção de Formação, Informação e Educação da ADENE
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