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Repowering e digitalização: a transição energética em Portugal

Repowering e digitalização: a transição energética em Portugal

A transição energética coloca um duplo desafio: acelerar a incorporação de energias renováveis e, simultaneamente, garantir eficiência, segurança do sistema e sustentabilidade territorial. Mais do que uma substituição de fontes fósseis por renováveis, trata-se de uma transformação estrutural do próprio funcionamento dos sistemas energéticos.

Neste contexto, a International Energy Agency (IEA) tem vindo a afirmar que a digitalização constitui um dos principais facilitadores de uma transição energética mais rápida, eficiente e segura. O seu papel torna-se particularmente evidente na integração de energias renováveis variáveis, como a solar e a eólica. A crescente penetração destas fontes exige capacidades avançadas de previsão e gestão em tempo real, permitindo antecipar padrões de produção e ajustar dinamicamente o funcionamento da rede. Sem estas ferramentas, a integração em larga escala implicaria custos mais elevados e maior risco operacional (IEA, Digitalisation and Energy, 2017; IEA, World Energy Outlook, edições recentes).

A digitalização assume também um papel determinante na eficiência energética, considerada pela IEA como o “primeiro combustível” da transição. A monitorização contínua e a optimização inteligente de processos, edifícios e infraestruturas permitem reduzir desperdícios e melhorar a utilização dos recursos, com impactes imediatos na redução de emissões (IEA, Energy Efficiency 2023).

Num sistema cada vez mais electrificado e descentralizado, a flexibilidade torna-se um elemento crítico. A digitalização permite operacionalizar essa flexibilidade através da resposta da procura, da gestão inteligente de cargas e da integração de armazenamento e mobilidade eléctrica, transformando consumidores em participantes activos do sistema energético (IEA, Power Systems in Transition, 2020).

A utilização de sistemas digitais contribui ainda para reduzir custos e aumentar a fiabilidade dos activos, através de monitorização contínua e manutenção preditiva, enquanto reforça a resiliência das redes energéticas e a sua capacidade de resposta a perturbações (IEA, Digital Demand-Driven Electricity Networks, 2019; IEA, Cybersecurity and Energy Systems, 2022). Neste novo paradigma, os dados assumem-se como uma infraestrutura crítica do sistema energético (IEA, Digitalisation and Energy, 2017).

É neste enquadramento que o repowering de activos energéticos existentes ganha uma relevância estratégica acrescida. Mais do que uma simples substituição de equipamentos, o repowering constitui

uma oportunidade para transformar infraestruturas existentes em activos inteligentes, plenamente integrados num sistema energético digitalizado. A nível europeu, esta abordagem tem vindo a ser valorizada no contexto do REPowerEU, que incentiva o repowering como forma de acelerar a produção renovável com menor pressão territorial.

Quando articulado com soluções digitais avançadas, o repowering permite maximizar o desempenho dos activos. A utilização de inteligência artificial, modelos preditivos e sistemas de controlo em tempo real contribui para optimizar a produção, reduzir custos operacionais e melhorar a integração na rede. Estes activos passam a incorporar capacidades de monitorização contínua e manutenção preditiva, aumentando a sua fiabilidade e longevidade.

Um exemplo particularmente relevante encontra-se no parque eólico nacional, onde uma parte significativa da capacidade instalada data do início dos anos 2000. Muitos destes activos operam com tecnologia já ultrapassada face aos padrões actuais, apresentando factores de capacidade inferiores e menor eficiência. O repowering destes parques — através da substituição por aerogeradores mais potentes e tecnologicamente avançados — permite aumentar significativamente a produção, frequentemente duplicando ou triplicando a energia gerada, sem necessidade de novas áreas de implantação.

Um exemplo particularmente relevante encontra-se na região da Serra da Estrela, uma das áreas pioneiras no desenvolvimento da energia eólica em Portugal. Vários parques eólicos instalados no início dos anos 2000 — no âmbito do primeiro grande ciclo de investimento eólico nacional — operam hoje com aerogeradores de menor potência unitária e menor eficiência face às tecnologias actuais.

Projectos de repowering nesta região têm vindo a ser analisados e, em alguns casos, implementados, com a substituição de múltiplos aerogeradores antigos por um número reduzido de equipamentos de maior capacidade e melhor desempenho. Este processo permite aumentar significativamente a produção energética — em alguns casos mais do que duplicando a energia gerada — ao mesmo tempo que reduz o número total de equipamentos e o impacte visual associado.

Para além do ganho directo de eficiência, a integração de sistemas digitais nestes activos repowered tem permitido melhorar a sua operação. A utilização de sistemas SCADA avançados, monitorização em tempo real e modelos preditivos de vento, permite optimizar a produção, reduzir indisponibilidades e aumentar a previsibilidade da energia entregue à rede. Esta maior previsibilidade é particularmente relevante num sistema eléctrico com elevada penetração de renováveis, como o português.

Teresa Ponce de Leão
Presidente do Conselho Diretivo
LNEG

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