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LIPOR e os resíduos das energias renováveis

A face invisível da transição energética: resíduos das energias limpas?

A transição energética é hoje uma bandeira global. A urgência em abandonar os combustíveis fósseis, a luta contra as alterações climáticas e a necessidade de garantir segurança energética levaram países como Portugal a apostar fortemente em fontes de energia renováveis, como o sol, o vento e a valorização energética dos resíduos.

No discurso político e empresarial, o futuro parece limpo, sustentável e tecnologicamente avançado. No entanto, há uma parte importante desta transição que continua a ser pouco discutida: a gestão dos resíduos produzidos pelas próprias energias limpas.

Energia renovável não significa, por si só, ausência de impacto ambiental. Ao contrário do que muitas vezes se dá a entender, as tecnologias “verdes” também geram resíduos. E não estamos a falar apenas da fase final da vida útil de um painel solar ou de uma turbina eólica. Estamos a falar de todo o ciclo de vida destes equipamentos: extração de matérias-primas, produção industrial, instalação, manutenção e desmantelamento. A questão que se impõe é: estamos a preparar-nos para gerir eficazmente este novo tipo de resíduos?

Portugal tem dado passos importantes na produção de energia limpa, e um dos exemplos mais relevantes encontra-se na LIPOR, associação de oito municípios da Área Metropolitana do Porto e que, desde há décadas, aposta numa abordagem inovadora à gestão de resíduos urbanos. A Central de Valorização Energética da LIPOR, instalada na região do Porto, é um caso paradigmático: trata anualmente mais de 375 000 toneladas de resíduos não recicláveis, transformando-os em energia elétrica. Além de reduzir a quantidade de resíduos enviados para aterro, esta solução permite recuperar metais e agregados que são reintroduzidos na indústria, alimentando a economia circular.

Esta forma de produção energética tem ainda uma grande vantagem face a outras renováveis: a continuidade de produção. Ao contrário do que acontece com a energia solar ou eólica, que dependem de condições meteorológicas variáveis, a valorização energética de resíduos funciona 24 horas por dia, 365 dias por ano. É, portanto, uma fonte estável, previsível e local de energia, o que representa uma vantagem estratégica num país como Portugal, ainda fortemente dependente de importações energéticas.

Contudo, esta realidade levanta também interrogações críticas. Apesar dos avanços, Portugal continua a colocar cerca de 50% dos seus resíduos em aterro, quando a média europeia ronda os 20%. A valorização energética representa apenas 19% do destino final dos resíduos, muito aquém dos cerca de 40% praticados em países como a Alemanha, a Holanda ou a Suécia. Estamos, portanto, perante um potencial subaproveitado, que poderia contribuir não só para reduzir a pressão sobre os aterros, como para produzir mais eletricidade e recuperar mais materiais valiosos.

Outro ponto que merece reflexão diz respeito ao paradoxo da energia limpa: à medida que multiplicamos os parques eólicos e solares por todo o país, especialmente no Sul, aumentamos também a geração de resíduos tecnológicos de difícil gestão. Um painel solar tem uma vida útil média de 25 a 30 anos. O que acontecerá quando, nas próximas décadas, milhões de painéis começarem a chegar ao fim da sua vida útil? Existem já estudos que alertam para uma futura “montanha” de resíduos solares que poderá ultrapassar dezenas de milhões de toneladas a nível mundial.

Estes resíduos contêm materiais valiosos, como silício, prata e alumínio, mas também substâncias potencialmente perigosas. Sem uma política nacional de responsabilidade alargada do produtor, sem investimento em centros especializados de reciclagem tecnológica e sem incentivos à reutilização de componentes, corremos o risco de substituir uma poluição por outra, agora mais silenciosa, mais tecnológica, mas não menos problemática.

O mesmo se aplica às turbinas eólicas, cujas pás – feitas de materiais compósitos – são extremamente difíceis de reciclar. Atualmente, muitas são simplesmente enterradas, uma solução longe de ser sustentável. Se queremos mesmo levar a sério a transição energética, temos de antecipar estas questões e integrá-las desde já no planeamento estratégico nacional.

Voltando ao exemplo da LIPOR, é importante destacar também os modelos inovadores de partilha de energia, como as Comunidades Energéticas Renováveis, a que é exemplo a ENNO – Energias do Norte. No Grande Porto, a Central de Valorização Energética da LIPOR já partilha anualmente cerca de 160 GWh de eletricidade com 28 entidades públicas da região, incluindo hospitais, serviços municipais e redes de transporte. Este modelo de descentralização e proximidade energética é uma oportunidade clara para tornar o sistema mais eficiente e menos dependente de redes de distribuição nacionais sobrecarregadas.

Fernando Leite
Administrador-Delegado da LIPOR

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Artigo sobre resíduos das energias limpas

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